Macho ou fêmea: o que muda depois da castração
Por Equipe Adoteca · 29 de agosto de 2026
Quase tudo o que se diz sobre macho e fêmea — marca, foge, briga, entra no cio, é mais dócil — descreve animais inteiros. Depois da castração, que é a regra na adoção, a diferença de comportamento entre os sexos quase desaparece, e o que sobra é individual. O sexo ainda pesa em três lugares: em algumas doenças, na escolha de um segundo pet e no gato macho que veio da rua. Fora isso, escolha o animal, não o sexo.
“Macho ou fêmea?” é uma das primeiras perguntas de quem vai adotar, e a internet responde com uma lista de diferenças: macho marca território e foge, fêmea é mais dócil e mais caseira, macho é mais carinhoso, fêmea é mais ciumenta. Repare que a lista se contradiz, e repare em outra coisa: quase todos esses traços vêm de hormônio sexual. Pets adotados são castrados — pelo protetor antes da adoção ou por contrato logo depois —, e o hormônio vai embora com a castração. Este guia é sobre o que fica.
O que a castração apaga
Em cães, a monta cai muito e a fuga atrás de fêmea no cio some; em gatos, o xixi de marcação desaparece na grande maioria dos machos castrados, assim como as brigas de rua e as escapadas. O cio da fêmea, com o sangramento e a agitação que vêm junto, deixa de existir. É por isso que a castração é condição de adoção em praticamente todo lugar — e é por isso que a lista de diferenças que circula por aí descreve um animal que você não vai levar para casa.
O que a castração não faz é acalmar. Um estudo com mais de treze mil cães publicado na Frontiers in Veterinary Science não encontrou menos agressividade com pessoas da casa nem com outros cães entre os castrados, e viu um pouco mais de agressividade com estranhos só nos cães castrados entre 7 e 12 meses de idade. Outro, com seis mil machos, na PLOS ONE, associou a castração precoce a mais medo de barulho, de estranhos e de outros cães. Castrar tira o hormônio; energia, reatividade e o jeito de ser continuam sendo daquele cão.
O que sobra de comportamento
Pouco, e nada que sirva para escolher. Nos cães, a revisão da literatura encontra machos inteiros mais ousados e fêmeas castradas menos ousadas, com diferenças pequenas e que variam de estudo para estudo — e a raça e a criação pesam muito mais do que o sexo em todas elas. Nos gatos, a associação britânica Cats Protection resume assim: castrados, machos e fêmeas podem ser igualmente carinhosos, calmos e fáceis de cuidar.
A exceção mensurável é a marcação em gatos: num levantamento clássico com gatos castrados antes da puberdade, cerca de um em cada dez machos ainda marcava com urina com frequência, contra um em cada vinte entre as fêmeas. É uma diferença real e pequena, que o ambiente — caixas de areia suficientes, um gato novo apresentado devagar — costuma decidir mais do que o sexo.
Onde o sexo ainda importa: saúde
Cadelas castradas. A castração previne piometra e tumor de mama, mas aumenta a chance de incontinência urinária com a idade, e o efeito é maior nas cadelas de porte grande — um levantamento britânico com mais de setenta mil cadelas, na VetCompass, mediu esse risco. Não é motivo para não castrar; é motivo para saber que um pingo de xixi na caminha de uma cadela grande e idosa tem tratamento e vale uma consulta.
Gatos machos. A uretra do macho é mais longa e estreita, e por isso é ele quem sofre a obstrução urinária — o gato que vai várias vezes à caixa, força e não sai nada. É emergência, castrado ou não, e não tem relação com a castração. Fêmeas quase não obstruem.
O macho que veio da rua. Um gato macho que viveu inteiro na rua brigou mais e tem mais chance de carregar o vírus da imunodeficiência felina. Isso não é um traço de sexo, é histórico — e se resolve com um teste antes da adoção. O guia de FIV em gatos explica o que um resultado positivo significa na prática.
Onde o sexo ainda importa: o segundo pet
Aqui o sexo tem dados a favor, e eles apontam para o par, não para o indivíduo. Em um levantamento com mais de seis mil casas com dois gatos, publicado na Frontiers in Veterinary Science, pares de duas fêmeas tiveram cerca de três vezes mais chance de uma relação ruim do que pares de dois machos castrados; pares mistos ficaram no meio. Nos cães, os casos de briga séria dentro de casa que chegam a consultório são, na maioria, entre cães do mesmo sexo, com duas fêmeas aparecendo mais do que o esperado — são séries de clínica, não a população toda, então é um alerta e não uma lei.
A tradução prática: se já existe uma fêmea em casa, um macho castrado é a aposta mais segura para o segundo lugar. E, em qualquer combinação, a apresentação lenta pesa mais do que o sexo dos dois — o guia da primeira semana em casa descreve como fazer.
O filtro do catálogo não é um filtro de personalidade
O catálogo da Adoteca deixa filtrar por Fêmea e Macho, e o filtro serve para as três coisas acima: uma condição de saúde que você prefere não vigiar, o par com o animal que já mora com você, um histórico de rua que pede teste. Ele não serve para encontrar um pet mais carinhoso, mais calmo ou mais fácil — para isso, a pergunta certa é ao protetor, sobre aquele animal. A lista de perguntas para o protetor começa por aí.
Este guia é informativo e não substitui a orientação de um médico-veterinário.
Perguntas frequentes
- Fêmea é mais carinhosa que macho?
- Não há evidência disso. Os estudos grandes de comportamento em cães castrados não encontram uma diferença consistente de afeto entre os sexos, e os questionários de personalidade de gatos nem tratam o sexo como fator. O que existe é variação entre indivíduos: um gato carinhoso é carinhoso porque é aquele gato, não porque é macho ou fêmea. Pergunte ao protetor como aquele animal se comporta com gente — é a única resposta que vale.
- Macho castrado ainda marca território?
- Em cães, a monta e a fuga caem bastante com a castração; a marcação cai menos do que se costuma prometer. Em gatos, o xixi de marcação some na grande maioria dos machos castrados, mas fica em cerca de um em cada dez — contra um em cada vinte entre as fêmeas castradas. Ou seja: sobra uma diferença, e ela é pequena.
- Castrar deixa o cachorro mais calmo?
- Não é o que os estudos mostram. Levantamentos com milhares de cães não encontraram menos agressividade em animais castrados, e alguns registraram um pouco mais de medo de barulho e de estranhos em machos castrados cedo. A castração reduz monta, fuga e briga entre machos, que são comportamentos ligados a hormônio, mas não muda energia nem reatividade — isso é criação, rotina e o temperamento daquele cão.
- Vou adotar um segundo gato. Macho ou fêmea?
- Se o gato da casa é fêmea, a combinação com mais chance de dar errado é outra fêmea: num levantamento com milhares de casas com dois gatos, pares de fêmeas tiveram cerca de três vezes mais chance de uma relação ruim do que pares de machos castrados. Não é regra, é probabilidade — e a apresentação gradual pesa mais do que o sexo. Mas, entre dois gatos parecidos, prefira o macho castrado para fazer companhia a uma fêmea.
- E um segundo cachorro?
- Os casos de briga séria entre cães da mesma casa que chegam a consultório são, na maioria, entre cães do mesmo sexo, e duas fêmeas aparecem mais do que o esperado. São dados de clínica, não da população toda, então trate como um alerta e não como regra. Se o cão da casa é fêmea, um macho castrado é a aposta mais segura; em qualquer caso, apresente com calma e com a orientação do protetor.
- Existe alguma diferença de saúde entre macho e fêmea castrados?
- Existe, e é aqui que o sexo importa de verdade. Cadelas castradas, principalmente as de porte grande, têm mais chance de incontinência urinária com a idade. Gatos machos têm a uretra mais estreita e por isso são os que entopem — uma emergência que fêmeas quase não têm. E um gato macho que viveu inteiro na rua tem mais chance de carregar FIV, o que se resolve com um teste antes da adoção. Nenhuma dessas é razão para descartar um sexo; são coisas para saber e vigiar.