Chow Chow para adoção

Foto: Andrea Arden · CC BY 2.0
Porte grande · 9 a 12 anos · origem: China
24 Chow Chow esperando por um lar na Adoteca agora.
A pergunta "o Chow Chow é agressivo?" tem uma resposta anatômica melhor que a psicológica: cerca de um em cada onze é atendido por pálpebra rolada para dentro a cada ano — um cão em dor ocular constante.
Temperamento
Reservado, territorial, pouco efusivo, seletivo com estranhos: a descrição repetida em todo lugar não está errada. O que falta é o contexto físico, e ele muda a leitura.
Este é um cão cuja cabeça foi selecionada para um olho pequeno e oval e para orelhas que se inclinam para a frente por cima dos olhos, produzindo o que o próprio padrão FCI descreve como a “expressão carrancuda característica”. Some-se a isso a prevalência de dor ocular descrita na seção de saúde, e a “distância” do Chow Chow passa a ter uma explicação melhor: um cão com dor ocular constante, pálpebra caída, sobrancelha pesada e orelha inclinada para a frente não gosta de ser abordado lateralmente nem de mão vindo por cima da cabeça. Isso é manejável — e é completamente diferente de “raça agressiva”.
Na prática: aborde de frente, agachado, deixe ele vir; evite abraço e mão sobre a cabeça; e ensine visitas a fazer o mesmo.
Cuidados no dia a dia
Olhos, todos os dias. Olho semifechado, lacrimejamento de um lado, esfregar a face no chão ou piscar demais são sinais de entrópio ou de úlcera — consulta no mesmo dia, não observação. É o cuidado nº 1 da raça e não aparece em nenhuma página brasileira.
Calor. O próprio padrão FCI diz que o cão não deve ter tanto pelo a ponto de impedir a atividade ou causar sofrimento em tempo quente. É uma frase difícil de engolir na maior parte do Brasil. Ambiente ventilado, água sempre disponível, passeio no início da manhã ou depois do pôr do sol, e nunca tosa como solução única — o subpelo também protege do sol. Vale notar que o Chow não é braquicefálico (o padrão pede focinho de comprimento moderado): o problema térmico é pelagem e locomoção, não via aérea.
Pelagem. Escovação frequente até a pele, com atenção especial a coxa, pescoço e atrás da orelha. Nó fechado em pelo denso vira dermatite embaixo e só se resolve sob sedação.
Articulação. Cão pesado, de passada curta e retilínea. Manter o peso baixo e evitar piso liso é a intervenção ortopédica mais barata que existe.
Saúde, com números
Entrópio é o problema definidor da raça, e o número é grande. Num estudo VetCompass com denominador de 2.250.417 cães (O’Neill et al., 2025), a prevalência anual de entrópio na população geral foi de 0,33%. No Chow Chow, foi de 9,28% ao ano, com OR 53,46 — segundo lugar apenas para o Shar-Pei (15,41%). Para comparação, o Golden Retriever ficou em 0,63%. Na prática: cerca de um Chow Chow em cada onze é atendido por pálpebra rolada para dentro em um único ano.
E o mecanismo é de conformação, não de azar. Segundo a revisão de bem-estar genético da UFAW, no Chow Chow o entrópio não decorre principalmente de pálpebra frouxa, e sim de uma abertura ocular estreita (blefarofimose), agravada por queda da sobrancelha e dobras faciais — ou seja, o olho pequeno e oval que o padrão pede. Segundo a mesma fonte, espera-se que a maioria dos Chow Chows afetados sofra irritação e dor constantes, possivelmente graves, e que a correção cirúrgica é mais difícil nesta raça que nas outras, exigindo com frequência mais de um procedimento. A descrição de pseudoptose e sobrancelha pendente nesses cães está documentada na literatura oftalmológica veterinária (Sarfaty et al., 2025).
A ironia útil para quem adota: o padrão FCI pede, em letras, olho “limpo, livre de entrópio” — e a conformação que o mesmo padrão descreve é o que produz o problema.
Carcinoma gástrico: preocupação real, não risco universal. Um estudo com 106 Chow Chows descreve risco elevado na raça, com histologia semelhante à do carcinoma gástrico difuso familiar humano e prognóstico ruim — a maioria foi eutanasiada em até duas semanas do diagnóstico (Koterbay et al., 2020; o trabalho não reporta odds ratio). Mas o contraponto precisa aparecer: no registro norueguês de câncer canino, com 19.715 tumores, os Chow Chows não aparecem no material de casos de carcinoma gástrico apesar de haver casos da raça na base. A leitura honesta é: preocupação documentada em população americana, com mecanismo familiar plausível, não um risco de raça universalmente estabelecido. Vômito crônico e emagrecimento num Chow adulto merecem investigação precoce.
Ligamento cruzado. Num levantamento com 1.243.681 cães, o Chow Chow está entre as raças com maiores chances de deficiência de ligamento cruzado cranial e entre as mais associadas a ter, ao mesmo tempo, displasia coxofemoral e problema de cruzado (Witsberger et al., 2008).
O que muda ao adotar um adulto dessa raça
Peça para olhar os olhos antes de qualquer outra coisa. Num adulto, o entrópio já se manifestou ou não. Pergunte se já fez cirurgia de pálpebra, quantas, se tem histórico de úlcera de córnea e se usa colírio hoje. Um Chow adulto já operado e confortável pode ser um excelente cão; um Chow com dor não tratada vai parecer “mal humorado” e não é isso que está acontecendo.
Pergunte também como ele reage a mão vindo por cima, a estranho que se aproxima de lado, a outro cão; se tolera manipulação de pata e orelha; e como ele se comporta em dia de calor. As respostas dizem mais sobre a convivência do que qualquer descrição de temperamento de raça.
Onde ele está. Chow Chow aparece em resgate brasileiro — quase sempre adulto, frequentemente entregue depois que o custo de pelagem, calor e olho apareceu. As contagens desta página vêm do catálogo da Adoteca e mudam todo dia.
Este guia é informativo e não substitui a orientação de um médico-veterinário.









